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sábado, maio 03, 2008

A água desce a cantar
Por entre calhaus e rochedos
Dança com as ervinhas das margens
Conta-lhes seus segredos.
Jeracina Gonçalves

JANELA ABERTA


A visão é uma janela
Do mundo para o coração
E do coração para o mundo.

A beleza entra por ela
Mas, a torpeza... também.
E por essa janela aberta
Sai alegria ou tristeza
Sai amor, sai emoção
Sai ódio, sai frieza...
Conforme aquilo que entrou
E foi enchendo o coração.

Olho o mundo à minha volta:

Vejo a majestade das serras,
A calma verdejante dos prados,
A imensidade azul do mar,
A cor luxuriante das flores,
O azul límpido do céu,
A água cristalina
Que num ribeiro da serra
Saltita de pedra em pedra...

Vejo além, naquele silvado,
A mãe passarinho, atenta,
O seu ninho a construir;
E aqui, junto de mim,
A borboleta multicolor,
Mas de uma beleza efémera,
Pousa de flor em flor...

Ali, mais adiante,
A abelhinha incansável,
Pousa aqui... pousa acolá...
E o pólen vai colhendo
Das lindas flores silvestres;
Nas patas o vai levando
Com suavidade e fervor
Para os favos construir
E, de mel, a colmeia encher.

Além, do outro lado,
Por entre as árvores frondosas
Do parque, bem verdejante,
Brincam crianças felizes:
Saltam, correm, riem, jogam...

E nos bancos do jardim,
Situados junto ao lago,
Os casais de namorados
Dizem palavras de amor
E trocam abraços sem fim.

E os meus olhos que são
Janela aberta para o mundo
Reflectem a emoção
Que esta beleza infinda
Produz em meu coração.

Olho noutra direcção:

As matas estão queimadas,
As casas arrasadas,
Há crianças esfarrapadas, chorosas, esfaimadas...
Vejo droga!... Prostituição!...
Há lutas!
Há guerras!
Vejo pais que maltratam filhos,
Filhos que maltratam pais...

E os meus olhos que são
Janela aberta para o mundo
Reflectem a dor, a tristeza, a raiva...
O medo e a solidão
Que enchem meu coração.

Se sou agredida, injuriada, ferida...
Tratada com injustiça?

Então...

Os meus olhos que são
Janela aberta para o mundo
Reflectem a raiva, o ódio profundo
Que invade o meu coração.

A visão é uma janela
Da vida para o coração
E do coração...para o mundo.

Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal

sexta-feira, abril 18, 2008

FEZ-SE NOITE…

O dia nasceu claro,
cheio de luz e de sonho;
mas esse dia risonho,
que chegou com o amanhecer,
engolido pela treva,
foi morto quase ao nascer.

E o espectro da noite
criou sombras em meu redor
alojou-se no meu peito
matou o sonho…Tolheu a luz…
matou o riso da criança
e o aroma da flor.
Jeracina Gonçalves

domingo, abril 06, 2008

É PRIMAVERA

A árvore
profundamente magoada,
mutilada no seu querer,
que o sol com doçura aquece,
dá-se toda em amor,
energia que a faz pulsar,
vestir seu manto de cor
recomeçar a cantar.
Jeracina Gonçalves

quarta-feira, março 26, 2008

PELENITUDE

Não sei se venho ou se vou
Não sei se parto ou se chego
Olho para mim nada sou
Olho em redor nada tenho.

Olho em redor tudo é meu:
As horas, que correm ligeiras,
O Sol, a Lua, as estrela
As serras, os rios, o mar
As vozes dos passarinhos
Os patos, no lago, a nadar…

Não sei se venho ou se vou
Não sei se parto ou se chego
Olho para mim nada sou
Olho em redor nada tenho
E tudo em redor me pertence
E enche minha alma de luz.
Jeracina Gonçalves - Barcelos/Portugal