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domingo, maio 05, 2013

... aos 94 anos 
Partiste, Mãe.
Partiste para o Além,  
Aí espero rever-te um dia.
Mas ficaste em mim.
Viva. No meu coração.
E é a ti que vou buscar o ânimo
Que me ajuda a seguir em frente
E a enfrentar os percalços
Que vão atapetando o meu caminho;
É a ti que vou buscar o ânimo
Para  o desânimo, que tantas vezes me toma
E quer arredar de mim a esperança.
Onde quer que estejas
sei que me escutas.
Sei que me observas e entendes.
Sei que caminhas a meu lado
Com a tua coragem, com a tua força,
Com o teu ânimo a derrotar o meu desalento.
E eu resisto em ti;
Em cada pedaço de ti, que se renova em mim.
Na minha vida me dá sustento.
Jeracina Gonçalves
5 de Maio de 2013 – DIA DA MÃE
Aqui, da minha janela, aberta de par em par
sob a música dos pássaros no verde, em frente, a chilrear.

A COR DA ESPERANÇA

O Sol sobe e desce dia a dia no horizonte.
Às vezes, encoberto por nuvens densas,
Não deixa que lhe admiremos o brilho,
Que usufruamos da sua luz resplandecente;
Mas, invariavelmente, continua lá, no seu posto,
A iluminar e a fomentar a vida na Terra.
Assim também o meu coração,
Subjugado ao peso de nuvens densas,
Mantém viva a cor da esperança,
A crença de que o sol, em breve, brilhará.
E nessa esperança viverá. E lutará.
Até ao romper da nova aurora.
Jeracina Gonçalves
 Barcelos, 6 de Setembro de 2012

quarta-feira, abril 24, 2013

QUANDO A ALMA COMUNICA

Sobrevoando a cidade  do Porto (JG)
       
A alma comunica na sinceridade das palavras
Que fluem, sem entraves nem tabus.
Articulam o que a alma sente.
Seja dor, seja alegria,
Frustração, raiva ou amor.
Não procura palavras bonitas.
É espontânea. É natural.
Não guarda. Não fecha.
Abre-se e oferece o que tem
Sem medir ou pensar consequências.
A comunicação que vem da alma é espontânea.
Flui como um rio sem escolhos.
É contínua, necessária, premente.
Vence obstáculos e avança imparável.

Jeracina Gonçalves
"in" POEMAS DE AMOR E DOR (Livro para publicação)

domingo, abril 21, 2013

APELO



Ó Hípnos sublime e redentor
que à minha alma, 
cativa do sofrimento e da dor,
negas o calor reconfortante do teu abraço,
por onde andas?
Acode à minha dor!
Vem!
Vem até mim.
Afasta de mim este cansaço
Deixa descansar minha cabeça em teu regaço.
Traz-me o lenitivo do teu abraço protector!

Jeracina Gonçalves
                                                           "in" POEMAS DE AMOR E DOR (livro para publicação)

sábado, abril 20, 2013


INQUIETUDE



Indolência, modorra, marasmo amortecem, em mim,
qualquer gesto, qualquer vontade, qualquer querer.
Indolência, modorra, marasmo dominam todo o meu ser.

De pálpebras cerradas tento ler a minha alma
Sem nada conseguir decifrar
Sem mesmo conseguir penetrá-la.
A minha alma está trancada contida fechada.
Minha alma está fechada entre nuvens escuras 
Nuvens pesadas.
Vejo nuvens. Apenas nuvens. Mais nada.

Caminho por uma estrada em terra batida
Caminho em direção ao infinito.
Na alma contida, fechada, levo um grito.
Um grito surdo. Intenso. Profundo.
Um grito à espera de uma brecha
Uma saída para o mundo para a liberdade
Onde possa soltar-se expandir-se
Voar sem barreiras a tolherem seu passo. 
Jeracina Gonçalves
"in" POEMAS DE AMOR E DOR (Livro para publicação)

terça-feira, abril 09, 2013

DESALENTO



Hoje sou como o barro:
Informe
Inconsistente;
Um tosco pedaço de barro
Sem querer e sem vontade
Moldável ao sabor da corrente
Que passa e deixa marcas
Na massa incongruente
Do meu ser cansado,
Do meu ser triste e doente;

Sou palmeira vergastada pelo vento
Incapaz de resistir à tempestade.
Sem força, sem ânimo, sem talento
De moldar a minha força à do vento.
Vergar, mas não partir. Dar-lhe passagem.
Regressar, depois, altiva e forte,
À forma original. Recuperar o norte.

Quisera ser pluma
Que o vento agarra e leva pelo ar
Sem ponto certo, lugar para aterrar;
Quisera ser lua, ser terra, ser mar,
Quisera ser chão, planta a desabrochar
Quisera ser luz, ser sol e ser luar…

Sou barro disforme, inconsistente.
Sem querer e sem vontade
       Vogando ao sabor desta corrente.
Jeracina Gonçalves
"in" POEMAS DE AMOR E DOR (livro para publicação)

PASSOS DA VIDA



Quando o vento varre forte
A área do coração
Em pedaços o suporte
A luz, a vida, o norte
Em pedaços pelo chão.

Mas se a brisa é macia
Acalenta a ilusão
Traz consigo a fantasia
No coração a alegria
No olhar o coração.

A vida é feita de passos
Nem sempre certos, seguros
Por vezes tão imaturos
Sem ritmo nem direção

Passos de vida perdida
Quantas vezes na ilusão
Passos de vida perdida
Em passos de destruição.
Jeracina Gonçalves
"in" POEMAS DE AMOR E DOR (livro para publicação)

domingo, abril 07, 2013

CORES DE VERÃO


Abre as janelas do teu coração.
Deixa que a luz entre
Ilumine os cantos sombrios
Cantos onde se acoitam dor e solidão.
Deixa que o calor de verão
Aqueça o lajeado do teu coração.

Não voltes as costas à vida.
Olha-a, nos olhos, com determinação.
Veste-a com tecidos leves, vaporosos
Tecidos com fios d'amor e d'amizade
No tear precioso do teu coração.

Afasta de ti as cores negras da solidão.
Veste a vida com as cores de Verão.
Jeracina Gonçalves
in À DERIVA (livro para publicação)

domingo, março 31, 2013


TRADIÇÕES
  
Fecho os olhos e toda a azáfama, toda a alegria, toda a magia desse tempo bonito da Páscoa da minha infância, na pequenina aldeia transmontana onde  nasci, numa das encostas do Marão, são imagens vivas a passarem no ecrã da minha memória.
Com que entusiasmo  eu vivia esses dias! Os dias que precediam o Domingo de Páscoa e o vasculhar dos cantos da casa na remoção dos lixos mais escondidos e teimosos, e das teias de aranha mais renitentes; o cuidado posto no lavar e esfregar do soalho, no limpar dos vidros, na procura das flores: lírios brancos e roxos, camélias, aleluias (e não podia faltar o alecrim para benzer e guardar para as trovoadas), flores dessa época, para embelezar a casa, preparando-a para receber Jesus Ressuscitado, que nos era apresentado na Cruz para beijarmos.
Na aldeia havia apenas uma cameleira. Ficava num quintal murado, sobranceiro à rua principal, que liga um extremo da povoação ao outro, e era da senhora Carminda, a professora. Toda a gente ia pedir camélias - japoneiras, como dizíamos - à senhora professora. Ela emprestava-nos a chave do portão e lá íamos nós cortar lindos ramos de camélias vermelhas e suas folhas de um verde muito escuro e brilhante. Lindas!
Era trabalho de crianças. Fazíamos uma enorme algazarra à volta da cameleira,  que soa ainda, viva, aos meus ouvidos.
E a azáfama na cozinha em volta da confeção das roscas de pão de ló e o cheirinho que se espalhava pela casa quando saíam do forno, douradinhas, e se estendiam fumegantes sobre a tampa da “masseira”. E o repenicar alegre dos sinos, no Sábado Aleluia, anunciando a Ressurreição de Jesus. E, depois, no domingo, a ansiedade com que esperávamos o tocar da sineta da Capela da Senhora da Ajuda anunciando que o Compasso tinha chegado à povoação:
"Vai começar pelo Povo de Cima!...”
"Está no cimo da Costa da Fonte!..."
"Vai pela Poça Velha!..."
"Está no Fundo do Povo!..." 
"Está a chegar à casa da senhora Constança!..."
Eram expressões usadas enquanto os nossos coraçõezinhos batiam apressadamente dentro do peito.
 Quando chegava à casa da senhora Constança, corríamos todos para a sala; a próxima casa, embora um pouco distante, seria a nossa.
Como eu gostava de todo o ritual religioso que antecedia o Domingo da Ressurreição: a "Via-Sacra", que todos os dias à noite, durante a quadra da Quaresma, era rezada na Capela da Senhora da Ajuda; a subida ao "Calvário", monte acima, dramatizando o percurso feito por Jesus até ao Calvário quando da Sua Paixão e Morte, geralmente aos domingos à tarde; os sermões na Igreja de Louredo, caminhando meia hora para lá e meia hora para cá, descendo a encosta até ao rio e do rio à igreja, e vice-versa, que durante três dias preparavam as pessoas para a Confissão Pascal...
Tenho saudades desse tempo. Desse tempo bonito e mágico da minha infância.
Tempo de tradições, que tão deliciosas lembranças deixaram na minha alma.
Jeracina Gonçalves