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quarta-feira, junho 11, 2014

DESABAFO


Ontem encontrei no hipermercado uma colega, um pouco mais velha que eu, com quem trabalhei há muitos anos, quando do inicio da minha actividade docente nesta cidade, com quem já fiz algumas viagens turísticas, que me perguntou como ia de saúde, como estava o meu marido, com estavam os filhos…, enfim, aquelas perguntas habituais, que se fazem quando encontramos pessoas que não vemos algum tempo.
De forma natural e espontânea, sem tabus nem preconceitos ou dramatismos de qualquer espécie, mas com verdade, fui informando do que vem acontecendo, desde algum tempo, com a minha família, pensando eu, que quando se questiona alguém sobre essas coisas - comigo é assim - está-se realmente interessado em saber do estado do outro.
Ingenuidade a minha! Nada disso. As coisas não são assim.
Pergunta-se, mas não se quer saber. É apenas um pró-forma social, nada mais.
Pelo menos ela não queria saber. Perguntou… por perguntar.
Queria lá saber do que se passa comigo e com a minha família!
Soube-o quando, na despedida, me disse que não gostava de falar com pessoas como eu.
E eu, ingénua, tinha acreditado que o seu questionamento fosse genuíno, fosse interesse, fosse solidariedade entre Seres Humanos! Claro que não teria falado com a espontaneidade que usei, e me carateriza, se imaginasse que não o era.
Mas… julguei-a por mim. Enganei-me profundamente.
Não respondi à sua “agressão”, especialmente porque estava com muita pressa, mas juro que doeu. Doeu muito. Abomino todo o tipo de hipocrisia, incluindo a estabelecida pelas regras da “boa educação social”.  E, quando questiono alguém sobre a sua saúde e a dos seus, ou sobre qualquer outro assunto, faço-o por interesse genuíno e oiço as respostas que têm para me dar com toda a atenção, não por coscuvilhice, mas por solidariedade.
Jeracina Gonçalves
11/06/2014

terça-feira, junho 10, 2014

A ROSA AMARELA

Há uma rosa amarela
Muito fresca e muito bela
No canteiro, mesmo em frente
À janela do meu quarto.
Sempre que abro a janela
De manhã, ao acordar,
Os meus olhos caem nela
E a sua beleza singela
Abre a minha janela
Põe brilho em meu olhar!
 ...
Jeracina Gonçalves
10/06/2014

domingo, junho 08, 2014

MEDITAÇÃO

O “Ser”, que de mim se solta,
nestes tempos conturbados
refugia-se nas flores dos prados
busca alma em seu odor
para levar de vencida
sem revoltas nem cansaços(!)
a íngreme e agreste subida
desta montanha despida
que cresce em seu redor.
Jeracina Gonçalves

11/05/2014

domingo, junho 01, 2014

Começo a sentir-me rendida


Pela encosta alcantilada
da montanha despida
o caminho segue íngreme
agreste
sem troço suave
recanto
árvore de sombra,
pedra de assento
oásis...
Neste deserto ressequido
não há recanto onde possa repousar
lavar meus pés doridos
as forças recuperar
para prosseguir a jornada.

Meu corpo pede repouso.
Minha alma pede sustento.
                                                                                 
Neste corpo a corpo com o tempo
o tempo não me dá guarida
por onde levá-lo de vencida.
Estou prestes a depor armas.
Começo a sentir-me rendida.

Meu corpo pede repouso.
Minha alma pede sustento.

E  meu tempo pede ao tempo
tempo para descansar
tempo, que me dê tempo,
pra minha alma alimentar.
.
Jeracina Gonçalves
27/05/2014

quarta-feira, maio 14, 2014

O BARQUINHO SOLITÁRIO


O barquinho solitário
entre as ondas alterosas
deste mar encapelado
debate-se, desesperadamente,
entre o caos em sua volta;

O barquinho, já cansado,
entre o caos em sua volta
perde o rumo, perde o norte
perde-se na neblina
que desce sobre o horizonte;

O barquinho, já cansado
Entregue à sua sorte
perde o rumo... perde o norte...
busca rumo… busca norte…
busca no Céu sua estrela
seu caminho, orientação.

Jeracina Gonçalves
27/04/2014

sexta-feira, maio 09, 2014

O CANTO DO MAR


A minha alma está triste. Está magoada...
Fechada à permanência do rio da esperança
Chora entre a névoa, que em volta cresce,
E envolve a chama qu'a minha alma aquece

Pesadelos ameaçam vencer a minha alma
Deixam a minha alma triste, apertada...
A minha alma está cansada. E, assustada,
Espalha sombras negras na fita da estrada.


Minha alma dorida, minha alma cansada,
Busca força no mar - na sua cor e em seu canto.
O nó qu'a minha alma atava desfaz-se em pranto
Nas ondas do mar, em sua cor e em seu canto.

Minha alma, lavada, veste o verde dos campos
Que cresce e se renova na luz que os veste.
Agora lavada, vestida de esperança,
A minha alma confia no azul do amanhã.
Jeracina Gonçalves
09/05/2014

domingo, maio 04, 2014

MÃE


Seu corpo se abriu e ninho se fez
A semente do amor  em si fecundou
Em si se formou, e em si cresceu
Um Ser pequenino, que em si logo amou
Logo cuidou... e abençoou.
Num grito medonho de corpo sofrido
Em ritos de dor seu corpo se abriu.
Seu Filho pariu. Sua alma sorriu.

Num abraço de amor profundo
O seu Filho embalou 
Com leite e amor o amamentou
Caminhou a seu lado
Lambeu suas feridas…

Seu Filho cresceu:
Sofreu suas dores
Lambeu suas feridas...
Por dentro sangrou
Mas não desistiu
Seu corpo mirrou
Mas não desistiu!
Num abraço de amor profundo
O seu Filho embalou
Com leite e amor o amamentou.

Eterno baú de amor sem limites
O Amor permanece, incondicional,
Jovem e forte, na alma de Mãe.
A alma de Mãe é Amor permanece
Jovem e forte. Não envelhece.

Mãe fica triste.
Mãe, não desiste!
 Jeracina Gonçalves
04/05/2014
Flor de Carqueja - Serra do Marão/2012   

sábado, maio 03, 2014

“Um Mundo, um Coração”

Esta expressão foi-me dada, há uns anos, como tema a desenvolver para a Revista Barcellano, do Lions Clube de Barcelos, e desenvolvi-a em determinado sentido. Hoje, em peregrinação pelas pastas do meu computador, encontrei-a. Reli-a e apeteceu-me dar-lhe uma refrescadela, que, a estes anos de distância, parece-me dar-lhe um sentido mais consentâneo.

São tantos os mundos dentro deste nosso Mundo, quantos os corações dos seres humanos que o habitam. 
Cada ser humano é um mundo de desejos, fantasias, sentimentos, emoções, verdades..., que choca, a cada momento, com os desejos, fantasias, emoções, sentimentos e verdades do outro, ali ao lado; e, quantas vezes, com as suas próprias verdades, fantasias e emoções, conforme o interesse e o estado de espírito do momento.  
Se todos esses mundos, se todos esses corações batessem em sintonia e se aglutinassem num só, “Um Mundo, um Coração” ou no “Mundo/Coração”, imbuído de um sentimento de união e bem-estar geral, que a todos incluísse no mesmo abraço fraterno, seria maravilhoso. Mas, infelizmente, é apenas e só, uma expressão bonita; uma expressão poética que está a muitos e muitos “Anos Luz” da realidade do mundo que habitamos. E cada vez me parece menos aplicável neste nosso planeta, onde domina o egocentrismo, “o salve-se quem puder", a força do poder e do dinheiro sem olhar aos destroços que deixa atrás de si.
Apesar da globalização, que tudo aproxima, ou talvez por ela (não sei), que nos torna insensíveis pelo hábito  de vermos as desgraças, existem ao lado da nossa realidade, do nosso pequeno mundo e para lá dele, muitas outras realidades, muitos outros pequenos mundos, que desconhecemos e nem imaginamos possível existirem, nem queremos conhecer. E o jogo de interesses entre estes nossos mundos individuais e coletivos, entre estas diferentes realidades é desmesurado e desencadeia uma guerra sempre e sempre mais sangrenta: destrói-se, aniquila-se tudo e todo aquele que nos faça frente, que se oponha ao nosso interesse, à nossa verdade, ao nosso poder. 
Seja qual for a direção em que olhemos, quer olhemos com os olhos da razão, quer olhemos com os olhos do coração, vemos um planeta ameaçado por toda a espécie de calamidades, prestes a desintegrar-se irremediavelmente: é a poluição, é a violência de toda a espécie, é a doença, é  a corrupção,  é a fome... e são as iniquidades de todo o tipo que se praticam sobre os mais frágeis deste nosso mundo, especialmente sobre as mulheres, os pobres, os velhos, as crianças, que deviam ser preservadas, cuidadas, amadas - ainda que não houvesse outra razão, só pelo facto de serem o “mundo de amanhã”-,  pois tudo o que hoje receberem (de bom e de mau) irá ajudar a formar o seu carácter; irá ajudar a “construir” os homens e as mulheres do futuro, ou seja, o mundo que virá. 
São enormes os fossos sociais, éticos e económicos, que separam as pessoas, os países e os continentes neste nosso mundo: morrem uns de fome, de sede, de frio, soterrados nos escombros das próprias casas, enquanto outros esbanjam milhões em festas, carros, iates…, e toda a espécie de luxos escandalosos; fabricam-se bombas para matar, em vez de se cultivar pão para distribuir; constroem-se armas para dominar, gastando-se milhões e milhões de euros, quando muitos milhões de seres humanos vivem miseravelmente, sem os mais básicos direitos, sem as mais básicas condições inerentes à condição de Humano.
É um mundo muito injusto, este, em que vivemos! É um mundo cada vez mais dividido, no qual, os mais fortes humilham permanentemente os mais fracos, gerando ódios e revoltas: violência atrás de violência. 
Os corações que habitam este nosso mundo batem cada vez mais dessincronizados, cada vez mais fechados em si. 
Fazer com que todos batam em uníssono, aniquilar a loucura do poder e harmonizar todos estes interesses submetendo-os ao interesse da Humanidade é tarefa gigantesca; tarefa para deuses poderosos. E parece-me que Deus tem todas as razões para estar completamente desiludido com o Ser Humano. 
 Jeracina Gonçalves