"EU E OS OUTROS, DAQUI E DALI", será um espaço de reflexão e de registo de imagens e pensamentos colhidos e construídos nas vivências do dia-a-dia, que poderão ser em prosa, em verso, ou imagem.
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terça-feira, setembro 15, 2020
segunda-feira, setembro 14, 2020
domingo, setembro 13, 2020
REFLEXOS DESTE TEMPO - Março/Abril 2020 – PARTE III
Por Jeracina Gonçalves – Barcelos/Portugal
Procura em ti e verás que encontras a forma de pores cá fora toda a negatividade que te atormenta e poderás, então, dar-nos a luz das palavras de esperança e de amor que conheço da tua escrita, Susana. É dessas que fico à espera.
- Está a fazer-me falta o chazinho de sábado à tarde com as minhas amigas, o almoço das quartas-feiras, os pequenos passeios e convívios que fazíamos quase todos os meses, as pequenas larachas que se dizem (sem nada se dizer), que nos libertam, nos fazem rir (e como é importante rir… Jorge!), as pequenas tricas que acontecem aqui e ali, as fofocas daqui e de acolá, desta e daquela… Enfim, essas pequenas coisas, tão simples, tão básicas, que parecem de menos importância quando temos a liberdade de fazê-las quando nos apetece, mas tomam um significado enorme e tornam-se tão essenciais se somos privados delas, especialmente por decisão alheia. Fazem imensa falta à nossa saúde psíquica e, consequentemente, à saúde física. São as pequenas coisas que vão dando o sabor à nossa vida. Dão-lhe o nosso timbre. São escolhas nossas e fazem-nos sentir bem.
- Sim, de acordo. Claro que eu não tenho por que sentir esse sentimento de clausura que te aflige. Continuo a caminhar pelos mesmos caminhos, a dirigir-me aos mesmos terrenos, a realizar os trabalhos próprios desta época (enxertar, botar sulfato, apertar as vides); trabalhos ao ar livre, a céu aberto. Continuo a circular livremente pelos mesmos lugares de sempre. No entanto também sinto uma certa - não direi angústia -, mas uma certa apreensão, talvez. E, na verdade, por aqui, a vida pouco se alterou. Não há missa nem festas nem velórios. Aí residem as principais diferenças em relação ao que era antes do Covid. Mas sinto essa falta de convívio com os amigos no adro da igreja, aos Domingos, antes e depois da missa, em que falávamos das coisas banais do dia-a-dia. Íamos sabendo as novidades da freguesia, o que aconteceu a este ou àquele… Enfim, essas pequenas realidades que fazem a vida de uma comunidade rural. E ainda as saídas à tarde, para aqui e para acolá, com a Joana. Libertavam-nos do cansaço de uma semana de trabalho intenso e duro. Sinto que o Domingo está incompleto. Falta-lhe qualquer coisa. Todavia não é nada que não consiga ultrapassar. Não estou confinado entre as quatro paredes e, dentro do meu espaço habitual do dia-a-dia, circulo por onde quero sem restrições. Por isso compreendo o que sentes muito bem. Mas sabemos que tem de ser assim. E precisas de ultrapassar essa frustração deitando mão das armas que puderes.
- Eu sei, Jorge. E ultrapassarei isto, tenho a certeza.
A Joana, como tem passado? Como está a dar-se com isto?
- Mais ou menos como eu. As restrições são as mesmas que as minhas. O Covid-19 ainda não chegou aqui. E enquanto não vierem os emigrantes não há muito risco. Entra e sai pouca gente da aldeia. Não teremos grandes preocupações com o “bichinho” que não é, antes de eles chegarem (se vierem). Seguimos com a nossa vida, com as restrições de que falei e com o nosso trabalho, que é muito nesta época. Depois teremos de ter mais cuidado: vêm de fora e sabe-se lá com quem contactaram. E o pior deste vírus, quanto a mim, é ter portadores saudáveis, que o transportam consigo e o transmitem sem o saberem. Não têm sintomas. Isto obriga-nos a olhar de lado para todas as pessoas, especialmente para as mais jovens. Pessoas que, às vezes, não vemos há longo tempo e gostaríamos de poder abraçar sem reservas. Priva-nos assim do abraço de um neto, de uma neta, de um filho, de uma filha, que não damos nem recebemos, como gostaríamos, por medo do contágio. E é muito complicado ter de aceitar que o que mais alegria nos dá, não poderá ser feito sem travões, sem pensamentos reservados, sempre com uma sombra a pairar em volta. É muito mau, Susana.
- É como dizes. É o que acontece comigo: nem as minhas netas nem os meus filhos vêm cá a casa, nem eu quero que venham. O nosso contacto é apenas telefónico. Mas bem me custa.
Se vivêssemos todos juntos… mas vivendo em sítios diferentes e a termos contactos diferentes, os encontros terão de ser muito cautelosos. Pertenço aos grupos de risco e não tenho nenhuma pressa em passar para o outro lado da vida. Mil vezes o confinamento dentro das quatro paredes da minha casa (pesado por estar só e não poder sair, sem medo, quando me apetece), mas viva e saudável. A minha casa é o meu ninho. É o meu lar. É o lugar que construí para mim e para a minha família. Guarda os meus afetos, as minhas pequenas relíquias; em tempos normais gosto de estar em casa. Agora é que, embora assuma conscientemente a necessidade deste confinamento, estou a senti-lo como o encarceramento da minha vontade, da minha liberdade de ação, ao meu querer.
- É algo imposto pelas circunstâncias, Susana. E quando é uma obrigação não consentida, mas forçada por alguém ou por alguma coisa é sentida de forma diferente.
- Exatamente. Ultimamente tenho pensado muito nos presidiários e no tormento que deve ser viver entre os muros robustos e as portas trancadas de uma cadeia, por anos e anos, com grades e guardas armados em volta.
- Fizeram por isso, Susana. Não estão presos por ajudarem uma velhinha a carregar o saco das compras, ou um velhinho a atravessar a rua, ou por encaminharem uma criança perdida até casa… Mataram, roubaram, violaram, corromperam outros com a força do seu poder, do seu dinheiro, com imposições coercivas e outras. Há muitos mais cá fora, que deviam estar dentro. Não tenhas pena. Não a merecem. Estão presos porque violaram a lei. Agiram contra as leis do seu país e contra os direitos e a integridade física ou moral dos seus semelhantes, ou contra as duas. Merecem o castigo. Devem cumpri-lo.
- Não tenho nada a opor, Jorge. Merecem o castigo e devem cumpri-lo. De acordo. Mas esta situação tem-me levado a pensar em coisas que nunca antes me tinham passado pela cabeça. A situação dos presidiários é uma delas. Presos anos e anos… Quando saem não deve ser fácil a adaptação à vida cá fora, não te parece?
- Não deve ser nada fácil, é verdade. E muitos saem e logo a seguir praticam os mesmos crimes que os meteram dentro. E sabe-se lá porquê? Porém, nós, que não praticamos crime algum, temos de ter paciência e encarar esta situação com calma, aprendendo a lidar com este confinamento o tempo que for necessário. É essencial darmos a volta por cima aos sentimentos negativos que nos paralisam a vontade. Afundá-los lá para baixo, bem para o fundo, de modo a não incomodarem. Não será fácil, mas temos de consegui-lo. E tu tens todas as armas para fazê-lo. Deita mão delas e pensa que tudo vai voltar a ser como dantes. Embora não saibamos quando. Mas vai voltar a ser como dantes.
Ou melhor: espero mesmo que algo mude para melhor nas relações humanas, depois de tudo isto. Todavia, por agora, é essencial que cumpramos as normas. Tens uma casa ampla e confortável, por onde podes deambular à vontade: vestida… despida…, como te apetecer, sem teres ninguém a controlar os teus atos. Aceita e agradece a sorte que tens. Pensa nas famílias grandes, com vários membros, que têm de viver confinados em espaços exíguos. Espaços onde só há lugar para um ou dois e vivem três ou quatro. Essas, sim, têm todos os motivos para desesperarem. E por esse país além, por essas cidades, haverá muita gente a viver nessas condições miseráveis. O preço das rendas e os salários baixos não lhes permitiam arrendar casas amplas. Muitos viverão como a “sardinha na canasta”, dia após dia, noite após noite, crianças pequenas, adolescentes, pais, avós… todos os dias no mesmo espaço, todas as noites no mesmo espaço… os ânimos confrontam-se, exaltam-se, surgem as pequenas guerrilhas, as grandes guerras, a violência…
- Sei disso, Jorge. Sei que sou uma privilegiada e não devia lamuriar-me. Mas que queres, é assim que me sinto: prisioneira. Prisioneira dessa partícula ínfima, que tem a capacidade de destruir vidas e de espalhar o caos pelo mundo à velocidade do vento. Mas sei que é apenas uma fase mais negativa que estou a passar, que ultrapassarei. Não deixarei que este sentimento de impotência me continue a paralisar a vontade por muito mais tempo. Aproveito para brindar-te com mais um poema:
TEMPO DE PANDEMIA
Chegou. Sem cerimónia
Atinge ricos e pobres
Novos e velhos
Sem-abrigo ou palacianos.
Não distingue raça, não distingue cor
Nem sexo nem religião
Ataca a todos sem distinção.
De oriente para ocidente
De norte para sul
Percorre o mundo de lés-a-lés
Com a rapidez do vento.
Difunde o medo, difunde a dor
Difunde o sofrimento…
Difunde a morte.
Impõe ao mundo o seu poder maléfico.
Confinado ao seu danoso poder
O mundo paralisa. Perde suporte.
E a fome circulante sobre a Terra, cresce.
Cresce a tristeza, cresce o desemprego
Cresce sofrimento e cresce a morte.
13/09/2020 (continua)
sexta-feira, setembro 11, 2020
REFLEXOS DESTE TEMPO - Março/Abril 2020 – PARTE II
- Então, amiga, como te sentes hoje? Espero que um pouco mais animada.
Fiquei preocupado contigo e a pensar no que ontem me disseste; e percebo bem o teu estado de espírito. Compreendo-te, Susana. Sozinha em casa sem televisão, sem e-mail, sem Google, sem Facebook... não é fácil. Especialmente quando não é uma decisão tua, como é o caso, mas imposta por essa "coisa". Todavia, às vezes, ajuda olharmos para fora de nós, para o que está à nossa volta. Ajuda a que nos vitimizemos menos e aceitemos melhor as contradanças da vida menos positivas e compreendamos que, afinal, somos uns privilegiados.
Analisa as tuas condições de vida, as condições da tua casa, as tuas condições de confinamento, apesar de todas as limitações. Compara-as com as de tantos e tantos portugueses e portuguesas por esse Portugal adiante. Compara as condições da tua casa com a de tantos portugueses e portuguesas por essas cidades e aldeias de Portugal.
Claro que é um confinamento imposto por essa miserável partícula invisível de qualquer coisa sem vida; mas é para preservarmos a saúde e a vida de todos. E esse facto tem de bastar para dar-nos o ânimo e a força para o assumirmos com convicta determinação. Porém não é fácil. Nem sempre o nosso inconsciente (e, se calhar, também o nosso consciente) aceita bem o que é imposto. A liberdade de ação é imprescindível para sermos, criarmos e concretizarmos coisas.
- Pois é, Jorge, comigo passa-se exatamente assim. Em tudo. Gosto de tomar as decisões que me dizem respeito e que ninguém as queira tomar por mim. Mas, em relação à situação atual nem tinha pensado nisso. Todavia faz sentido. Inconscientemente tomo isto como uma obrigação imposta por outrem, e não consegui ainda assumi-lo como uma decisão consciente, necessária à continuação da minha liberdade, da minha vida saudável e da dos meus semelhantes. Por isso me é penoso aceitá-lo: amachuca-me, tira-me a vontade de agir, de construir, de fazer seja o que for. Cansa-me. Paralisa-me.
Há dias escrevi este poema, que julgo exprimir bem o que me vai na alma:
CONFINAMENTO
O silêncio perfura o ar com um grito intenso.
Silencioso.
Silenciosamente intenso
A ribombar no meu coração e entre as quatro paredes de mim.
A ribombar entre as quatro paredes de mim.
Atinge o meu coração e o meu cérebro.
E, como líquido peganhento de solidão,
escorre por todo o meu corpo.
A minha janela já não é o palco do meu encanto;
Perdeu o seu canto e o seu encanto.
Já não bordo a tela azul com os tons de verde esperança.
O azul e o verde perderam a sua cor
Emudeceram os pássaros cantores
E o elegante plátano já não cativa a minha atenção.
O silêncio perfura o ar com um grito intenso.
Silencioso.
Silenciosamente intenso
A ribombar entre as quatro paredes de mim.
- É um poema bonito, amiga. Mas reflete uma energia anímica "rasteirinha", mulher!
Tens de ultrapassar isso. Precisas de levantar esse ânimo. E tens armas para fazê-lo.
Essa capacidade de traduzir sentimentos em palavras dá-te o poder de exorcizar os sentimentos negativos que te apoquentam. Usa-a, Susana! Exorciza as tuas dores. Põe cá fora o que te vai na alma e faz deste tempo nebuloso um tempo de criatividade e dádiva, com que nos podes maravilhar, como tão bem sabes fazer.
Lembras-te daquele livrinho de histórias infantis, que ofereceste no ano passado à Patrícia?
Pois bem, como ela ainda tem dificuldades na leitura corrente, li-o com ela. E digo-te uma coisa: gostei de cada uma das suas histórias, pedagógicas e inspiradoras de bons sentimentos; mas a da Cadeira Mágica está excecional. Deve ser lida e interiorizada por pequenos e grandes.
Aquele sonho que levou Margarida a sobrevoar o rio desde a nascente à foz, admirar e deliciar-se com os pedaços lindos, saudáveis, harmoniosos, cheios de vida e de cor, tanto no leito como nas margens, e compará-los com os pedaços sujos, mortos, arrastando consigo para a morte a vida a eles subordinada, reflete uma análise cuidada dos sentimentos ambientais que é necessário incentivar nas nossas crianças, e, infelizmente, em muitos adultos também.
É uma história muito real do que se passa com as vias hídricas nas mais diversas áreas deste nosso planeta. Infelizmente. E parece-me deliciosamente pedagógica, de leitura leve e agradável. É uma lição de amor à vida e à natureza.
É uma história para crianças e adultos. Dos “oito aos oitenta”, diria eu: uns aprendem, outros reaprendem o que já perderam na euforia do provento rápido, sem olhar às consequências ambientais dos seus atos.
Devia ser lida, interiorizada e meditada por adultos, em primeiro lugar, para fazê-los refletir nas suas atitudes egocêntricas e egoístas, e no mal que fazem aos próprios filhos e netos, que serão os herdeiros de tudo o que hoje fazemos a este belo planeta que nos serve de casa: “água mole em pedra dura…” ; depois deve ser lida pelas crianças, para que aprendam desde o início a amar e manter limpa e saudável a nossa casa global.
Gostei muito de lê-la, Susana. Levou-me a meditar sobre as minhas atitudes para com esta nossa casa, que nos envia os seus gritos de alerta cada vez mais diretos e com mais frequência, incentivando-nos a alterarmos o nosso relacionamento com ela na prática do dia-a-dia. E essa mudança necessita de ser atual. Já. A todos os níveis. Não podemos adiar mais a sua prática. Teremos de cuidar e preservar os rios, os lagos e toda a rede hidrográfica. A água é vida. Ao poupá-la e ao manter limpas e saudáveis as linhas circulantes e os lençóis freáticos, estamos a cuidar da vida na Terra, a preservar as vidas que suportam a nossa vida, para que continuemos a ser vida neste planeta.
Tens muito para dar Susana. Procura preencher este tempo de confinamento e fazer dele um tempo de dádiva e de amor: cria e dá de ti o que tens em ti.
- Obrigada, Jorge. As tuas palavras são... nem sei que dizer. Fico muito feliz que tenhas gostado da minha humilde historiazinha. A intenção ao criá-la foi mesmo a de chamar a atenção para os problemas ambientais, particularmente no que respeita à poluição das águas. Foi criada para ser lida por crianças dos oito aos oitenta. E essa foi a resposta que dei à editora, na altura, quando achou que era um pouco “difícil” para as crianças, o que, sinceramente, não concordo. E agora vou ler-te mais um poema escrito ontem; pequenino para não cansar.
“A noite amanhece em silêncio.
Caminha pela minha casa em ondas sonoras de solidão
e propaga-se no tempo deste tempo sem luz,
deste tempo de nuvens espessas a toldarem o horizonte.
- Então, Susana! Não melhorou nada. Assim, não!
Quero ler poemas teus que falem de esperança, de vida, de vitória sobre esta situação perversa que vivemos sob o poder deste vírus maléfico, que tomou o mundo.
11/09/2020
(continua)
quinta-feira, setembro 10, 2020
quarta-feira, setembro 09, 2020
REFLEXOS DESTE TEMPO - Março/Abril 2020 – PARTE I
Por Jeracina Gonçalves – Barcelos/Portugal
-Não
sei que dizer-te, Jorge. Sinto-me aprisionada numa gaiola. Desmotivada,
apática, sem vontade para nada.
Da
sala para a cozinha, da cozinha para o quarto, do quarto para a janela, da
janela para varanda, da varanda para o terraço… assim passo os meus dias. Dia
após dia, de sol ou de chuva, sempre o mesmo ritmo. Dias e
dias a olhar para as mesmas plantas, as mesmas árvores, as mesmas casas, os
mesmos telhados, o mesmo retalho de céu, embora dinâmico e sempre diferente,
ouvir o canto dos mesmos pássaros, que geralmente me embalam mas agora me
enfastiam, caminhar pelos mesmos espaços, olhar as mesmas paredes, os mesmos
móveis, os mesmos quadros, sem ver ninguém…
Ah!
Jorge! Este confinamento entre as quatro paredes da minha casa acaba comigo em
pouco tempo.
Ainda
se houvesse mais alguém em casa com quem trocar ideias, jogar as cartas, o
dominó, a batalha naval, mudar os móveis de sítio… Sei lá! Fosse o que fosse.
Até mesmo para disparatar uma vez ou outra. Era ação, era movimento, era vida.
Assim é tudo muito estático, muito parado, muito silencioso e por muito tempo.
Só as vozes dos locutores da TSF me fazem companhia. Oiço todos os programas.
São elas que me vão informando da evolução desta pandemia que afeta todo o
mundo e me está a afetar deste jeito. E olha que bem me questiono: “Mulher,
que se passa contigo?! Nunca foi complicado para ti ficares em casa, e sempre
soubeste ocupar o tempo de forma a parecer-te pouco. Que se passa agora? Gostas
de escrever, gostas de ler, gostas de costurar...
Escreve, lê, costura!”
De
nada me vale. Estou oca, vazia de ideias e de tudo.
Sento-me
ao computador e nada aparece, nada me habita: nem uma palavra, nem uma frase,
nem uma ideia me ocorre que me envolva a mente e me desperte a vontade de
desenvolver qualquer texto minimamente apetecível. Pego num livro: não me
encontro, não me concentro, as palavras fogem, a frase foge, o sentido da frase
foge… Tudo escapa à minha atenção. Levanto-me. Vou até à cozinha, abro a porta
do frigorífico (é ele que mais padece com estes meus ataques de solidão; abro-o
uma infinidade de vezes ao longo do dia) e lá vão duas ou três metades de noz,
uma maçã, uma banana… Sei lá! O que houver pronto a pegar. E isto vai pesando,
pesando, pesando. Daqui a nada nem tenho roupa que me sirva. Do frigorífico
vou até à janela da cozinha, olho o plátano majestoso em frente, que tanto me
encantava e agora nada me diz; volto ao escritório, ao computador, ao livro…
vou até à sala de estar, ponho um CD. Não tenho paciência para ouvi-lo.
Cansa-me. Não me diz nada. Não sinto a emoção da música. Desligo-o e volto ao
escritório e tudo se repete. Enfim:
ando nisto dentro da minha casa, de um lado para o outro, sem acertar ideias
nem encontrar a capacidade de me envolver em qualquer atividade. Nenhuma me
cativa. Nem
me reconheço, Jorge. Eu não era assim.
E,
para cúmulo de tudo isto, neste isolamento que me é imposto por essa miserável
partícula de uma substância qualquer, que nem vida tem, não tenho sequer uma
televisão, onde possa encontrar uma fresta por onde possa fugir,
momentaneamente, para outros ambientes mais apetecíveis, levada pelas imagens e
pelas palavras que me entrem por essa janela do mundo. Avariou há dias. E agora
não encontro sequer um técnico a quem possa recorrer para me resolver o
problema.
-
De facto, assim não deve ser muito fácil, não, Susana! Assim é complicado. A
televisão é uma companhia. Traz-nos o mundo a casa. Embora, às vezes, mais
valha desconhecermos o que vai pelo mundo. Está de tal jeito que ouvir as
notícias e as desgraças que nos trazem só nos faz mal. Mas sempre há um ou
outro programa de entretenimento que ajudam a passar o tempo. E, neste tempo,
são importantes: permitem soltar umas boas gargalhadas de vez em quando e
alargar o pensamento para lá do Covid-19, o que é manifestamente importante
para a saúde, quer física quer mental. Uma boa gargalhada faz sempre bem; e
agora ainda mais.
-
É verdade. Se faz! E como eu sinto agora falta de uma boa gargalhada!
Nunca
fui grande consumidora de televisão, no que respeita a sentar-me no sofá de
olhos fitos no ecrã. Mas ligava-a de manhã e mantinha-a ligada pelo dia. Ia
fazendo o que tinha a fazer e ia ouvindo. Se alguma coisa me despertasse mais
interesse, parava o que estava a fazer e dava-lhe a devida atenção. Dessa forma
esbatia o silêncio em meu redor, e tinha a ilusão de não estar só. Sentia gente
à minha volta, ainda que do lado de lá do pequeno ecrã, e fazia-me companhia.
Hoje
apercebo-me da falta que me fazem essas vozes, esse barulho, essas imagens
(ainda que nem sempre agradáveis), mas que me faziam sentir parte do mundo. Aconteciam
no mundo que habito. E embora
tenha passado essa missão para a TSF, que está sempre ligada cá em casa, é diferente. A imagem dá jeito. É um complemento importante da palavra. E lá diz
o adágio: “Vale mais uma imagem que mil palavras”.
Hoje sinto-me isolada,
separada do mundo de que me habituei a fazer parte, do qual faço parte, mas do
qual me chega pouco eco além do que é emanado pelo Covid19.
A imagem não entra
em minha casa. Apenas a palavra dos locutores e locutoras da TSF me vão fazendo
alguma companhia. E
eu, que até gosto (ou gostava) de estar em casa, sinto-a agora como uma prisão.
E o que nunca foi para mim um fardo é agora vivido como um peso avassalador
sobre a minha cabeça. E passa-se isto comigo, que sempre fiquei dias e dias seguidos entre as quatro paredes da minha casa, ocupada a fazer as minhas
coisas, as coisas de que gosto, sem me aborrecer! Escrevia, costurava,
arrumava, lia, passava uma vista de olhos pelo Facebook, pelo e-mail (tinha
correspondentes que me enviavam imensos anexos divertidos e culturais: músicas,
lugares, factos históricos, monumentos, enfim, coisas divertidas e úteis que me
preenchiam o tempo de forma agradável, divertida e culta. Aprendi muito com
essas coisas que recebia por e-mail de pessoas amigas, cultas, que me mereciam
toda a confiança, amizade e respeito pelo seu saber. E sentia mesmo um enorme
prazer em estar em casa sozinha, entretida com tudo isso. Não foram poucas as
vezes que reclamei por falta de tempo, que parecia ganhar asas e desaparecia num
ai. Não me chegava para nada, dizia eu. Não me chegava para o que queria fazer.
Agora
tenho tempo a mais. E nem Facebook
nem e-mail tenho, que seriam uma
arma, ainda que pequena (ou grande, uma vez que me permitiria contactar com os
meus amigos) para combater este isolamento.
Desde
Julho de 2019 que não tenho Facebook
nem e-mail.
Devo ter açúcar ou melaço
para atrair essas vespas invasoras, esses seres despersonalizados, que se
escondem atrás de máscaras de letras e números para invadirem contas e
vasculharem computadores em busca de algo que lhes possa dar rendimento, como o
mel atrai as formigas. E cada e-mail novo ou conta do Facebook que tenho
tentado criar ao longo deste quase ano, é imediatamente apanhada também. Assim
como tudo o que escrevo. Alguém está a usá-lo em proveito próprio. Certamente. Tenho
gasto rios de dinheiro em limpezas e reinstalações de computadores, e de nada
vale. Pouco depois estão cá de novo. E, como deves calcular, tudo isto me cansa e me provoca esta desmotivação e esta dificuldade
de assumir, com decisão, a necessidade de ficar em casa, e nada do que antes me
agradava e que ainda posso usufruir, me absorve ou capta o meu interesse.
Mas,
claro, anteriormente tinha a liberdade de poder sair quando me apetecesse, e isso torna tudo diferente. Gosto de estar em casa, mas que nada me impeça
de sair sempre que tenha vontade, sem preocupações do que possa acontecer.
E julgo
que toda a gente entenderá isso.
Calculo que aconteça com todos.
Porém
quando essa liberdade é coartada por um malfadado vírus, uma partícula insignificante
de qualquer coisa sem vida, que o impõe e me impede de reger a minha vida como
gosto e me apetece, tendo de me submeter aos seus caprichos, cria em mim uma
resistência (julgo que inconsciente), enorme de obedecer a esse designo. Embora
obedeça ao que está determinado, e fique em casa, pela minha saúde e pela dos
outros; mas com grande desgaste mental e psíquico.
(Continua)
terça-feira, setembro 08, 2020
“No céu escuro sem luar”
Vejo tristeza, solidão;
A lua, com seu luar,
Dá ao céu outro condão.
Dá-lhe a magia e o sonho
De dois seres enamorados
Em passeio de mão dada
Bebendo o sussurro do mar.
O céu escuro, sem luar,
É triste, não digam que não.
Gosto do céu pintalgado
De pontos de luz cintilantes,
Ou não…
A Lua, de sorriso prateado,
No centro de tal efusão.
Estrelas, planetas, cometas
Constelações, nebulosas
Via Láctea, Três Marias,
Cassiopeia, Ursa Maior
Pode também ser Menor…
Dão ao céu o tal encanto
Que enche o meu coração.
Jeracina
Gonçalves
Barcelos/Portugal,
08/09/2020
domingo, setembro 06, 2020
A NUVEM QUE NAVEGA A TERRA
A nuvem que navega a Terra
é negra, pesada
esconde da Humanidade o sol criador
e protetor
e impõe preceitos de doença e de dor
a caminharem sobre a Terra
por veredas e autoestradas
sem a latitude escolherem
nem sequer a longitude
todos os lugares lhe servem
para armar a sua tenda
impor o seu mister.
Seja no Norte ou no Sul
no Oriente ou Ocidente
propaga pelo planeta
sofrimento sem idade
sem credo sem sexo sem cor
seja rico seja pobre
letrado ou analfabeto
seu abraço é democrático
abraça qualquer um
Pelos caminhos da Terra
a nuvem negra pesada
acrescenta fome à fome
acrescenta dor à dor
deste mundo desigual
neste mundo sempre em guerra.
No entendimento Humano
algo deverá ficar
depois desta nuvem passar:
todos somos irmãos
no nosso destino final.
se unirmos as nossas mãos
potenciaremos as forças
contra os agentes do mal.
Jeracina Gonçalves
Barcelos, 08/07/2020
sábado, setembro 05, 2020
Não gosto deste novo formato do blogue. E já o tinha dito. Por que foi alterado?
Para mais uma vez me provarem que estão por aqui, que continuam a exercer domínio sobre o que faço, sobre o que quero, sobre o que é meu?
Muito bem: voltem a colocar no ar o blog passado; o blog clássico que eu criei há um bom par de anos. Talvez então me volte a alegria de publicar alguma coisa interessante; talvez então me volte a vontade de comunicar emoções, sentimentos, pensamentos, imagens... quem sabe? Talvez qualquer coisa volte a fazer-me cócegas no coração.
Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal, 05/09/2020
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