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quinta-feira, junho 09, 2022

 ERVAS DANINHAS

Entre códigos e algoritmos espreitam olhares invisíveis.
Felinos, secretos, esperam a presa.
Como o animal bravio à espera da presa para se alimentar,
Esperam o momento para o seu laço lançarem.
Entram, esmiúçam baús, cofres secretos
Mexem, remexem…
Conspurcam o teu relicário, o baú dos teus segredos
e dos teus afetos, 
Onde a tua alma guardavas.
Apoderam-se da tua alma e dela fazem festim.
Seus olhos vampirescos do teu sangue se alimentam.

Felinos, secretos, espreitam invisíveis olhares.
Como toupeiras, cavam galerias subterrâneas.
Esquadrinham o espaço.
Felinos, secretos, esperam o momento de laçarem suas presas.
Mexem, remexem, escarafuncham seus espaços,
Roubam, traficam, chantageiam…
Lançam a anarquia o desconcerto, a desordem, a confusão
Onde tudo estava certo, decorria sereno, ordenado, seguro
Surge o caos, o desconcerto, a desorientação.
São escória deste tempo.
São as ervas daninhas deste prado cibernético.


Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal, 05/06/2022

domingo, junho 05, 2022

 CUIDEMOS DA NOSSA CASA

CUIDEMOS DA NOSSA CASA

Meu corpo sobre a areia 
deitado na borda do mar
com doçura, com carinho 
o mar me abraça, me enleia
qual foguetão que da Terra 
ruma direto ao Espaço
num ledo e manso sonhar 
no dorso de um golfinho
parto a navegar 
sobre a flor viva do mar;

Sobre a flor viva do mar 
percorro grandes distâncias 
ascendo depois ao espaço, 
perscruto o sistemas solar
sem contudo encontrar
outro planeta outra Terra 
para poder habitar
quando esta Terra acabar.

Num ledo e manso sonhar 
no dorso de um golfinho
sigo p'ra outro lugar. 
outro sistema solar.
em busca d' outro planeta
d'outra Terra 
para poder habitar
quando esta Terra acabar, 
sem outra Terra encontrar.

No dorso de um golfinho 
regresso ao mesmo lugar
esta é a casa que tenho. 
não posso desbaratá-la
nem aos seres que nela habitam  
sustêm o meu lugar
são desta casa o alento, 
sustentáculo, harmonia
p'ra esta casa  ser lar 
careço de os cuidar.

Com cabeça e coração 
careço de os cuidar
com todos coabitar 
a todos dar atenção
deles recebo saúde, alegria
recebo beleza, amor e pão.
Cuidemos da nossa casa! 
Vivamos em união!
Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal, 05/06/2022

quinta-feira, junho 02, 2022

 AME

Ame. Conjugue o verbo amar.
Ame um homem, uma mulher
Ame o que no mundo tem vida
E também o que não a tiver.

Ame o céu, ame as estrelas
Ame a terra, os rios e o mar
Ame. Conjugue o verbo amar
Sempre e onde estiver.

Ame o que no mundo tem vida
E também o que não a tiver.

                                                                Jeracina Gonçalves
                                                                Barcelos/Portugal, 14/02/2019

quarta-feira, junho 01, 2022

 

NO PRINCÍPIO ERA UM ASSOBIO

Às quintas-feiras a cidade transformava-se numa grande feira. Parecia que toda a população de Portugal e de Espanha tinha decidido convergir para Barcelos para celebrar qualquer coisa que eu não entendia bem, mas achava que deveria ser algo de bom, pois as pessoas pareciam estar felizes e eu tinha sempre direito a um assobio. As temporadas que passava, em pequena, em casa dos meus avós maternos, passavam-se sempre sob o signo desta festa.


Na cerimónia de doação da coleção de Figurado de Barcelos dos Arquitetos Alexandre Alves Costa e Sergio Fernandez ao Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, compreendi por que razão sempre associei aquela cidade ao som dos assobios de barro: é que, nas suas origens, o figurado destinava-se a ser utilizado como brinquedo para as crianças. Tratava-se de peças pequenas, uma atividade secundária dos oleiros, que se dedicavam sobretudo ao fabrico de louça, e que ocupavam os espaços deixados livres no forno com pequenos instrumentos musicais: ocarinas, gaitas, rouxinóis, cucos... lembro-me, em particular, de um cão que respondia com um assobio possante quando eu nele descarregava o ar dos pulmões.


O que aprendi com Isabel Fernandes, ex-Diretora do Museu de Olaria de Barcelos e atual Diretora do Museu de Alberto Sampaio, Paço dos Duques de Bragança e Castelo de Guimarães, que fez o elogio à coleção na cerimónia da doação, é que, no início, o figurado tinha sempre um assobio acoplado, justificando assim a sua utilidade enquanto brinquedo de criança. Os bonecreiros eram anónimos, e as peças não eram valorizadas como peças de autor. Foi em finais da década de 50, e ao longo dos anos 60, que se deu a grande mudança: o olhar dos adultos começou a valorizar as peças, estas foram crescendo e ocupando cada vez mais espaço nos fornos, e os assobios foram, aos poucos, sendo esquecidos. Ao mesmo tempo, afirmaram-se os nomes de artistas populares, de que Rosa Ramalho é, sem dúvida, o nome maior.


A coleção de Figurado de Barcelos doada ao Museu por Alexandre Alves Costa e Sergio Fernandez, composta por mais de 600 peças, oferece-nos a história desta transição. Compreendemos, quando a escrutinamos, que, à medida que as peças foram perdendo o assobio, elas se agigantaram não apenas no tamanho, mas também nos sobressaltos da imaginação dos ceramistas. A coleção convoca-nos, igualmente, para uma reflexão sobre a forma como o figurado de Barcelos se constituiu, simultaneamente, como um meio utilizado pelo Estado Novo para reforçar o sentido da identidade portuguesa e um lugar de subversão para os artistas.


São estas – e muitas outras histórias – que nos propomos contar na grande exposição que estamos a organizar, em março do próximo ano, da coleção de Figurado de Barcelos que o nosso museu agora recebeu. Estamos muito gratos aos Arquitetos Alexandre Alves Costa e Sergio Fernandez por esta doação que passará a poder ser fruída por uma comunidade alargada – e, como sugeriu Isabel Fernandes, disponibilizada para novas leituras, novos significados, novas emoções. Estamos mesmo entusiasmados com esta doação!


Fátima Vieira, 

Vice-Reitora para a Cultura, Museus e Editora

Publicado por Jeracina Gonçalves

Newsletter nº 98 da Universidade do Porto 

 O MEU CORAÇÃO INTERPELA-TE, SENHOR!

Como alegres rouxinóis de ramo em ramo a chilrear,

Límpido e ondeante riacho de rocha em rocha a cantar,
Assim as crianças que vejo, daqui, da minha janela,
No recreio da escola, a correr, a rir e a brincar.
Belas e sadias sementes no prado a desabrochar (em).

O meu coração, cativado, absorve a melodia
Que entra pela minha janela no raiar deste dia.
Porém, o meu pensamento, cioso do meu coração,
Agarra o meu coração e leva-o por outros lugares,
Pelo mundo… de lugar… em lugar…
E a sombra desce, e a sombra cresce e cobre o meu olhar.

Porquê, Senhor? Crianças! Apenas crianças, Senhor!
E a sombra desce, e a sombra cresce e cobre o meu olhar.
Crianças espoliadas dos seus direitos de crianças serem,
Como crianças viverem, e crescerem.
Crianças que mordem o pó do chão sob a metralha assassina,
Sob o aguilhão da fome, da sede, da malvadez dos homens…

E a sombra desce, e a sombra cresce e cobre o meu olhar.
Deixa o meu coração magoado. 
Deixa o meu coração a pensar:
Crianças! São apenas crianças... 
São apenas crianças, Senhor!
São no
 mundo a sementeira, o roseiral a florir
São no mundo o esteio, a semente do provir
Mal começaram a viver e já têm que morrer!?

O meu coração, magoado, interpela-Te, Senhor:
Crianças.... São apenas crianças... 
São apenas crianças, Senhor!
Mal começaram a viver e já têm que morrer?
Senhor, Tu que tens todo o poder, 
Põe no coração da humanidade o AMOR.
Cada um dê, de si, o melhor para construir o amor, 
E em paz e união 
Todos possamos viver a alegria, a saúde, o amor e o pão.

Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal/Dia Mundial da Criança

terça-feira, maio 31, 2022

 INVISÍVEIS AO OLHAR

Andam por aí, em volta de nós, energias diversas, “coisas” invisíveis ao nosso olhar desarmado, mas que influenciam as nossas vidas nos nossos humores, no nosso modo de estar com e de sentir o outro, na nossa saúde, nos nossos relacionamentos…

E não precisamos de procurá-las em além fronteiras desta nossa dimensão humana (também as poderemos encontrar por aí, mas de outra espécie). Estas são naturais. São deste nosso espaço terreno e, muitas, fazem parte de nós e são-nos essenciais; outras, porém, causam grandes transtornos na nossa saúde e na nossa existência quotidiana.

Refiro-me às bactérias, aos vírus e aos fungos, que circulam por aí, em nós e em volta de nós, mas os nossos olhos desarmados não conseguem descortiná-los, e são causadores de grande parte das doenças que afetam a humanidade. E temos o exemplo bem recente do COVID19, que continua connosco e a impor regras ao nosso quotidiano. Essa “coisa” minúscula, que nem vida tem, mas que tem a força demoníaca de se apropriar do ser humano, impor-lhe as suas regras e usá-lo como meio de transporte para percorrer o mundo, arrasar as economias, impedir-nos o convívio aprisionando-nos como pássaros na gaiola, mudar a forma de nos relacionarmos e de trabalharmos e disseminar fome, solidão e morte por todo o mundo. E, quando julgávamos ter o controlo sobre ele, escapa-se por entre a malha larga das suas mutações, informando-nos que está connosco e connosco quer ficar. Graças à sua força demoníaca de renovação vai adquirindo características novas a cada mutação e fura todas as barreiras que julgávamos ter colocando entre nós e ele. Surge novo, com caraterísticas novas, a cada momento, esplendoroso e cheio força, continuando a arrastar consigo para a morte seres humanos que, pela idade ou por outras razões de saúde, são mais débeis. E são já alguns milhões os que pereceram sob a sua vontade demoníaca.

Jeracina Gonçalves

Barcelos/Portugal, 26/05/2022

domingo, maio 29, 2022


Sombras...
Sombras ensombram o meu olhar.
Tanta destruição, tanta dor
Tanto ódio, tanta guerra
Armas que vomitam morte
Tanto sangue corre pelo chão,
Morto, antes de ter vivido.

Sombras...
Sombras ensombram o meu olhar.
Tantos destroços, tanta dor
Tantos corpos massacrados
Tanto solo esventrado
Tanto sangue derramado!...
Senhor, deixa-me acreditar
Que o mal será destroçado.

Sombras...
Sombras ensombram o meu olhar.

                                            Jeracina Gonçalves
                                            Barcelos/Portugal, 29/05/2022



segunda-feira, maio 23, 2022

MEU DEUS, MUITO OBRIGADA!

Todos os dias, de manhã, ao acordar
salto da cama, corro a persiana do meu quarto
abro a janela de par em par
e grito a Deus, à vida, ao mundo:
-Bom Dia! Meu Deus, muito obrigada!

Cada dia é mais um dia 
que tenho para viver
com firmeza e com vontade 
e exprimir a gratidão
do fundo do meu coração 
por cada novo dia a nascer.

Cada dia é mais um dia 
que tenho para agradecer
a alegria de ser vida 
e com alegria viver
a paz, a serenidade, 
que cerca o meu viver
no inquieto viver 
deste mundo em convulsão
com tanta gente a sofrer 
a fome, a sede, as guerras 
o caos, da morte, a destruição,
as intempéries do tempo… 
a solidão…

Cada dia é mais um dia 
que tenho para agradecer
o meu lugar na vida 
neste mundo global
onde todos somo inseridos 
e temos um papel
na felicidade geral
de forma coletiva 
e também individual.

                                                                                Jeracina Gonçalves
                                                                                Barcelos/Portugal, 11/05/2022