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quinta-feira, novembro 17, 2022

O SILÊNCIO DA LUA

Silêncio!
Deixem-me pensar.
Talvez, um dia,
Diga tudo que tenho para falar.

Daqui, deste lugar,
Olho a Mãe-Terra
E tenho vontade de chorar:
Tanta dor infligida
À Mãe que sustem e alimenta a vida!

Silêncio!
Deixem-me pensar.
Talvez, um dia,
Diga tudo que tenho para falar.

Daqui, deste lugar.

Olho a Mãe Terra
E tenho vontade de chorar:
Tanta maldade, tanta guerra,
Maus tratos, tanta dor
Espalhada sobre a Terra!...
Porquê, meu Deus e Senhor?

Silêncio!
Deixem-me pensar.
Talvez um dia
Diga tudo que tenho para falar.


Os humanos, seres perversos,
Maltratam a saúde e a beleza
Desta casa 
Seu berço, seu suporte.
O seu suporte da vida!

Daqui, deste lugar,
Olho a Mãe Terra
E tenho vontade de chorar.


                                       Jeracina Gonçalves
                                       Barcelos/Portugal,15/11/22

sexta-feira, novembro 11, 2022

 UMA CARTA À ACEITAÇÃO

 Olá, querida amiga!

Somos conhecidas e amigas de longa data (creio poder chamar-te de amiga, pelo muito que me tens ensinado sobre a vida e a sua volubilidade). 
Na vida nada é permanente, disseste-me, e que deveria tê-lo presente em mim, em cada momento. A vida tão depressa sorri cheia de alegria e entusiasmo, a caminhar por paisagens soalheiras e campos floridos e perfumados, como te imerge na dor e te abre abismos e desfiladeiros apertados, escuros, sem sol, entre altas e abruptas falésias agrestes. E quando esse lado mais perverso da vida me acontece, quando desesperada de dor, desarmada, sem saber o que fazer para encontrar a saída desse lugar escuro, fechado, agreste, sempre me apareceste tu, com a tua serenidade, a tua sabedoria, o teu bom senso, dizendo-me docemente: “minha querida, estou contigo, não desesperes. É apenas um momento menos bom, mas vai passar. Vais encontrar de novo o caminho da planície e tudo sorrirá novamente. Olha em frente sem desespero e caminha. Olha e caminha. Não permitas que o desalento tolha a tua passada. Caminha de braços abertos, disponível para dar e receber, com a firme certeza de que nada é permanente; nada é para sempre. E tudo o que acontece tem um sentido, um objectivo próprio, humanizador e facilitador do crescimento e do enriquecimento pessoal, se for compreendido e aceite.”
Obrigada, querida amiga, pelo amparo, pelos ensinamentos e pelo acolhimento que dás às minhas dores. 
Ser-me-ia difícil a caminhada sem ti; mas tendo-te comigo, basta-me olhar em volta, para esta bela engrenagem interdependente que é a vida neste todo universal de que fazemos parte e do qual cada um de nós é uma ínfima partícula entre muitas outras constituidoras do todo, para perceber o quanto tenho a agradecer e aceitar o que vem, e o que vier, nesta interdependência que é o universo. E o quanto é urgente aprendermos a tratar uns dos outros, esquecendo um pouco o “eu”, individual, para pensarmos plural: nós.
Abraço-te, Amiga.
Jeracina Gonçalves/Barcelos Portugal

sábado, outubro 01, 2022

 A GANÂNCIA DESMEDIDA


A avidez predadora,
que enforma estes tempos 
na Terra
de oásis faz desertos
dos velhos, mulheres e crianças
faz nómadas de terra em terra,
na Terra sem lugar certo.

Faz da Terra campos de guerra,
dos férteis prados e jardins
faz tumbas que não têm fim.
A avidez predadora
é uma coisa ruim.

Como serpente assassina
espalha o caos e o terror
num rito de tristeza e dor
do sangue faz seu festim.
A avidez predadora
é uma coisa ruim.

                                                Jeracina Gonçalves
                                                Barcelos/Portugal, 24/07/2022

terça-feira, setembro 20, 2022

“MINHA PÁTRIA, MINHA LÍNGUA”


“Minha Pátria, minha Língua”
Doce mar onde o meu pensamento navega
Germina e se faz arauto da minha alma.

Levada para lá do berço
Foste mar em muitos mares e continentes
E germinaste por este mundo redondo
Cânticos de saudade e de amor
Em palavras únicas, de doce e terno sabor.

És única e és minha.
Aquela que a minha alma abraça
Em ti se enlaça
Com profundo e terno amor.

Amo-te, porque és minha
Doce língua dos meus avós
Que à minha alma dás voz.

“Minha Pátria, minha Língua”
Com o meu coração te abraço
“Minha Pátria, minha Língua”
Ó Língua dos meus avós!

                                                    Jeracina Gonçalves
                                                    Barcelos/Portugal, 05/05/2021

quinta-feira, agosto 18, 2022

 DE CABEÇA E CORAÇÃO


O sonho está na alma
irrevogável, eterno,
resiste à erosão do tempo,
resiste à erosão do espaço,
encaminha-te no sentido da mudança,
do crescimento de ti.

De sonho em sonho
“como bola nas mão de uma criança”
imprime movimento à tua vida
encaminha-te em direção ao futuro
no sentido da mudança
do crescimento de ti.

Persegue os teus sonhos,
se neles estão a cabeça e o coração.
Se não são sonhos vãos
avança com eles de pés no chão.
Nunca desistas dos teus sonhos.
Persegue-os até lhes atingires o âmago, o coração.


                                                Jeracina Gonçalves
                                                Barcelos/Portugal, 18/08/2022

sábado, agosto 13, 2022

 FANTASIA

 


A fragrância do sonho que me acompanha traz-me as rosas vermelhas da roseira ao pé da porta e as pétalas com que acariciavas o meu rosto. E tem a doce melodia dos rouxinóis que para mim acordavam as madrugadas e a cor límpida do azul que cobre a manhã, no lago da montanha verde que sempre me acompanha. 
Caminho pela margem do lago. Sozinha. Fisicamente estou só; mas não estou sozinha. A minha mente fervilha de ideias soltas. Indefinidas. Não consigo ordená-las, corporizá-las, dar-lhe expressão. Mas estão lá, indistintas, vagas, confusas, a informarem-me que algo dentro de mim procura expressão. Algo está a pedir para manifestar-se. O que seja ainda não consigo decidir; mas não tenho dúvidas: qualquer coisa dentro de mim pede a minha atenção mais direta, mais cuidada, mais atenta. Pressinto que seja algo de bom: uma boa notícia, um amigo, uma amiga  que me visitam, um sonho preste a realizar-se,... Pressagio que algo de muito bom esteja prestes a acontecer ao meu coração com varandas floridas voltadas para o rio, rincão da passarada que, logo de madrugada, solta belos madrigais e cantares ao desafio: rouxinóis, pintassilgos, melros, pardais,... Acordam-me a madrugada com seus maviosos sons e preenchem o meu coração com ternura e alegria; acompanham-me pelo dia e fazem-me o dia belo e bom.

Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal, 02/08/2022

terça-feira, agosto 09, 2022

 INVISÍVEIS AO OLHAR


Olho este tema de frente, de trás, de lado, reviro-o, volto a revirá-lo e não encontro porta ou janela por onde possa entrar no seu âmago, esmiuçar a sua essência. Pressinto-o extenso e profundamente rico e belo, mas passa por mim como uma sombra que não consigo agarrar. Circula pelo meu quintal numa correria louca e não consigo fazê-lo entrar em minha casa, abraçá-lo, senti-lo no meu coração.
São tantas as energias que circulam por aí, a meu lado e em volta de mim, boas e más, naturais e sobrenaturais, que são invisíveis ao meu olhar talvez pela simples razão de não as querer ver, sentada que sou no meu cadeirão de puro egoísmo. Não quero vê-las para minha comodidade. Circulam por aí, mas são invisíveis ao meu olhar preocupado em olhar apenas para o meu umbigo. Passam por mim como sombras indefinidas, transparentes e morrem à frente, num beco do caminho, dizimadas pela indiferença, pela fome, pela sede, pela metralha e intempéries da vida. E, eu, que podia ter feito alguma coisa para prevenir a sua morte prematura, sentada no meu cadeirão sobranceiro à vida, com comida na mesa todos os dias, na comodidade de uma boa casa, com saúde, família e amigos, não as vi passar, porque não me permiti abrir os olhos do meu coração para o outro, que caminha ao meu lado, mas não deixo que me toque. Seres que circulam com as suas vidas partidas nas esquinas traiçoeiras das intempéries da vida. E é o sem-abrigo que dorme naquele beco, abrigado da noite por meia dúzia de jornais haja chuva ou sol, calor ou frio; é o velhinho que amava a vida e era feliz na sua existência, mas caiu fulminado pela praga do Covid, porque eu, que sabia do perigo que este tempo representava para ele, não quis usar a máscara que poderia tê-lo protegido; são regiões e regiões de todo mundo arrasadas pelas cheias, pelas secas, pelos tufões e furacões, e são milhões os seres humanos que caem exangues, mortos pela fome, pela sede, soterrados nos escombros, arrastados pela força poderosa e assassina das enxurradas; mas eu, sabendo que a poluição é a causa de grande parte desses eventos da natureza, continuo a poluí-la, a maltratá-la, não abdicando de nenhuma das minhas comodidades, uso e abuso do consumismo, “estou-me nas tintas” para a reciclagem, …
As coisas mais importantes da vida, aquelas que realmente fazem sentido e fazem verdadeiramente uma vida feliz, apenas são visíveis ao nosso olhar, se as pensarmos com o coração. Se deixarmos que os olhos do coração se abram, perscrutem o mundo à nossa volta e nos coloquem no lugar do outro. E, colocando-nos no lugar do outro, nos levem a tentar fazer a nossa parte no sentido de todos podermos ser abraçados no mesmo abraço de bondade, de amor e de paz. E, assim, todos seremos mais felizes: os olhos dos nossos corações estarão também mais para tantas coisas maravilhosas que o mundo põe, também, sob o nosso olhar físico, mas que não vemos, porque temos os olhos do coração trancados.

Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal, 26/06/2020

PS: Este tema foi desenvolvido sob proposta de Ana Coelho para integrar uma antologia com o mesmo nome, em que, por razões pessoais, decidi não participar

sábado, agosto 06, 2022

 A FORÇA DO OLHAR

Passei, olhei, e nada vi. Os meus olhos apenas olharam
Não viram, passaram adiante. O meu olhar não estava ali.
Porém, algo se revelou em mim. Voltei atrás. Olhei de novo.
Sentado num banco, que não vi, um homem,
Cabelos brancos, roupas modestas, olhava para mim.
Seus olhos iluminados por uma luz azul,
Intensa, mas serena e terna, olhavam para mim:
A força do olhar, com que me olhava, vinha de dentro,
Da raiz do coração no brilho da luz que o iluminava.
A força do olhar com que me olhava, como um rio de paz,
Abriu para mim uma estrada quieta, serena, tranquila,
A desaguar nas águas intranquilas da minha emoção.

A força daquele olhar iluminado por uma luz azul,
Serena e terna, quando o meu olhar tocou
Foi uma corrente elétrica que todo o meu ser trespassou.
O meu coração, com aquele olhar, para sempre ficou.

A força do olhar, que nasce no coração,
É a força que arrebata outro coração
E nos braços do amor os carrega até ao céu.

Jeracina Gonçalves
Barcelos/ Portugal, 11/07/2022