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sábado, julho 05, 2014

A INSÓNIA


Fui botada ao abandono  por Hipnos, reparador e amigo, que tanta falta me faz.
O melhor é levantar-me e ir até ao computador. Quem sabe se aí me surgirá qualquer ideia que consiga desenvolver com algum sentido, me envolva e me torne menos pesada e dolorosa esta pena imposta por Hipnos & Companhia. Ou talvez fique comovido com este meu desassossego e me levante esta pena tão dura, e me abra caminho para o seu regaço acolhedor e reconfortante.
Vou para o escritório. Vou centralizar todos os meus sentidos num único objectivo: ouvir o silêncio inerente a um compartimento, sem ninguém, além mim. Gosto de ouvir o silêncio.
Se soubermos escutá-lo, verificaremos que são inúmeros os sons que o enchem. 
Sons que geralmente nos passam despercebidos, mas estão presentes em qualquer ambiente, por mais silencioso que pareça, se nos concentrarmos e nos predispusermos a ouvi-los e a entendê-los. E podem até comunicar-nos e dar-nos a conhecer saberes importantes. 
E, muitas vezes, permitem-nos a evasão, o sonho, e levam-nos a viver situações fantásticas, criadas pela nossa imaginação.
Neste momento preciso dessa evasão; preciso dessa fuga providencial que dê algum calor e conforto ao meu coração, fazendo-o viver momentos especiais, que o façam vibrar e o ajudem desprender-se desta corrente sufocante que o aprisiona e me atemoriza.
Centro a minha atenção neste espaço do escritório e um zunir impressionante, como se um grupo de abelhas - não digo enxame, porque o zunido seria muito mais intenso - andasse por aqui na colheita do pólen, voando de flor em flor, fere o meu ouvido atento. E quanto mais me concentro neste espaço, mais intenso se torna o zunido em meu redor. Julgo que vem do próprio computador obedientemente ao meu serviço; mas a consciência exacta de onde me chega, não a tenho. Está por aqui....à minha volta, e derruba os muros que me enclausuravam e leva-me até às margens verdejantes e floridas de um lago muito azul, onde esvoaçam passarinhos coloridos e abelhinhas atarefadas pousam de flor em flor na recolha do pólen, que carregam nas patitas até à colmeia. E essas imagens começam a colorir a minha alma e a dar energia ao meu corpo cansado pela insónia.
Mas o espaço do meu escritório já não é suficiente ao meu exercício de concentração. Preciso de alargar o espaço de concentração para lá da janela fechada, com vidros e vidraças duplas.
Fecho os olhos. Concentro-me no espaço que fica para lá de janela, e chega-me então a mistura de muitos outros sons. Mas o chilreio dos pássaros é sem duvida o mais dominante: um… outro… e outro…
Acabaram de acordar e ocupam-se em cuidar de si, da sua higiene matinal e do seu desjejum. 
Não são porém os únicos sons que me chegam do lado de lá da janela fechada; outros se destacam também. E o som da brisa matutina a ressoar nos ramos, que dançam ao ritmo do seu desejo, chega também aos meus ouvidos e à minha mente atenta; um galo canta…
São os sons do amanhecer. Os sons do despertar para mais uma jornada que chegam até mim: uns mais agudos, mais graves outros; uns mais audíveis, outros mais surdos, todos fazendo parte da maravilhosa sinfonia de um dia ao acordar.
O som forte do motor de um automóvel predomina agora. É o carro do vizinho com o motor a trabalhar. Começa a rodar e desaparece pouco a pouco na distância, como um fumo intenso, que sai da chaminé e logo se espalha e desaparece levado pelo vento, deixando de novo o ar limpo e o céu azul.
Um toque estridente da campainha da minha porta fere agora os meus ouvidos.
É, certamente, a empregada que chega. Vou abrir.
Jeracina Gonçalves


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