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quinta-feira, junho 02, 2022

 AME

Ame. Conjugue o verbo amar.
Ame um homem, uma mulher
Ame o que no mundo tem vida
E também o que não a tiver.

Ame o céu, ame as estrelas
Ame a terra, os rios e o mar
Ame. Conjugue o verbo amar
Sempre e onde estiver.

Ame o que no mundo tem vida
E também o que não a tiver.

                                                                Jeracina Gonçalves
                                                                Barcelos/Portugal, 14/02/2019

quarta-feira, junho 01, 2022

 

NO PRINCÍPIO ERA UM ASSOBIO

Às quintas-feiras a cidade transformava-se numa grande feira. Parecia que toda a população de Portugal e de Espanha tinha decidido convergir para Barcelos para celebrar qualquer coisa que eu não entendia bem, mas achava que deveria ser algo de bom, pois as pessoas pareciam estar felizes e eu tinha sempre direito a um assobio. As temporadas que passava, em pequena, em casa dos meus avós maternos, passavam-se sempre sob o signo desta festa.


Na cerimónia de doação da coleção de Figurado de Barcelos dos Arquitetos Alexandre Alves Costa e Sergio Fernandez ao Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, compreendi por que razão sempre associei aquela cidade ao som dos assobios de barro: é que, nas suas origens, o figurado destinava-se a ser utilizado como brinquedo para as crianças. Tratava-se de peças pequenas, uma atividade secundária dos oleiros, que se dedicavam sobretudo ao fabrico de louça, e que ocupavam os espaços deixados livres no forno com pequenos instrumentos musicais: ocarinas, gaitas, rouxinóis, cucos... lembro-me, em particular, de um cão que respondia com um assobio possante quando eu nele descarregava o ar dos pulmões.


O que aprendi com Isabel Fernandes, ex-Diretora do Museu de Olaria de Barcelos e atual Diretora do Museu de Alberto Sampaio, Paço dos Duques de Bragança e Castelo de Guimarães, que fez o elogio à coleção na cerimónia da doação, é que, no início, o figurado tinha sempre um assobio acoplado, justificando assim a sua utilidade enquanto brinquedo de criança. Os bonecreiros eram anónimos, e as peças não eram valorizadas como peças de autor. Foi em finais da década de 50, e ao longo dos anos 60, que se deu a grande mudança: o olhar dos adultos começou a valorizar as peças, estas foram crescendo e ocupando cada vez mais espaço nos fornos, e os assobios foram, aos poucos, sendo esquecidos. Ao mesmo tempo, afirmaram-se os nomes de artistas populares, de que Rosa Ramalho é, sem dúvida, o nome maior.


A coleção de Figurado de Barcelos doada ao Museu por Alexandre Alves Costa e Sergio Fernandez, composta por mais de 600 peças, oferece-nos a história desta transição. Compreendemos, quando a escrutinamos, que, à medida que as peças foram perdendo o assobio, elas se agigantaram não apenas no tamanho, mas também nos sobressaltos da imaginação dos ceramistas. A coleção convoca-nos, igualmente, para uma reflexão sobre a forma como o figurado de Barcelos se constituiu, simultaneamente, como um meio utilizado pelo Estado Novo para reforçar o sentido da identidade portuguesa e um lugar de subversão para os artistas.


São estas – e muitas outras histórias – que nos propomos contar na grande exposição que estamos a organizar, em março do próximo ano, da coleção de Figurado de Barcelos que o nosso museu agora recebeu. Estamos muito gratos aos Arquitetos Alexandre Alves Costa e Sergio Fernandez por esta doação que passará a poder ser fruída por uma comunidade alargada – e, como sugeriu Isabel Fernandes, disponibilizada para novas leituras, novos significados, novas emoções. Estamos mesmo entusiasmados com esta doação!


Fátima Vieira, 

Vice-Reitora para a Cultura, Museus e Editora

Publicado por Jeracina Gonçalves

Newsletter nº 98 da Universidade do Porto 

 O MEU CORAÇÃO INTERPELA-TE, SENHOR!

Como alegres rouxinóis de ramo em ramo a chilrear,

Límpido e ondeante riacho de rocha em rocha a cantar,
Assim as crianças que vejo, daqui, da minha janela,
No recreio da escola, a correr, a rir e a brincar.
Belas e sadias sementes no prado a desabrochar (em).

O meu coração, cativado, absorve a melodia
Que entra pela minha janela no raiar deste dia.
Porém, o meu pensamento, cioso do meu coração,
Agarra o meu coração e leva-o por outros lugares,
Pelo mundo… de lugar… em lugar…
E a sombra desce, e a sombra cresce e cobre o meu olhar.

Porquê, Senhor? Crianças! Apenas crianças, Senhor!
E a sombra desce, e a sombra cresce e cobre o meu olhar.
Crianças espoliadas dos seus direitos de crianças serem,
Como crianças viverem, e crescerem.
Crianças que mordem o pó do chão sob a metralha assassina,
Sob o aguilhão da fome, da sede, da malvadez dos homens…

E a sombra desce, e a sombra cresce e cobre o meu olhar.
Deixa o meu coração magoado. 
Deixa o meu coração a pensar:
Crianças! São apenas crianças... 
São apenas crianças, Senhor!
São no
 mundo a sementeira, o roseiral a florir
São no mundo o esteio, a semente do provir
Mal começaram a viver e já têm que morrer!?

O meu coração, magoado, interpela-Te, Senhor:
Crianças.... São apenas crianças... 
São apenas crianças, Senhor!
Mal começaram a viver e já têm que morrer?
Senhor, Tu que tens todo o poder, 
Põe no coração da humanidade o AMOR.
Cada um dê, de si, o melhor para construir o amor, 
E em paz e união 
Todos possamos viver a alegria, a saúde, o amor e o pão.

Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal/Dia Mundial da Criança

terça-feira, maio 31, 2022

 INVISÍVEIS AO OLHAR

Andam por aí, em volta de nós, energias diversas, “coisas” invisíveis ao nosso olhar desarmado, mas que influenciam as nossas vidas nos nossos humores, no nosso modo de estar com e de sentir o outro, na nossa saúde, nos nossos relacionamentos…

E não precisamos de procurá-las em além fronteiras desta nossa dimensão humana (também as poderemos encontrar por aí, mas de outra espécie). Estas são naturais. São deste nosso espaço terreno e, muitas, fazem parte de nós e são-nos essenciais; outras, porém, causam grandes transtornos na nossa saúde e na nossa existência quotidiana.

Refiro-me às bactérias, aos vírus e aos fungos, que circulam por aí, em nós e em volta de nós, mas os nossos olhos desarmados não conseguem descortiná-los, e são causadores de grande parte das doenças que afetam a humanidade. E temos o exemplo bem recente do COVID19, que continua connosco e a impor regras ao nosso quotidiano. Essa “coisa” minúscula, que nem vida tem, mas que tem a força demoníaca de se apropriar do ser humano, impor-lhe as suas regras e usá-lo como meio de transporte para percorrer o mundo, arrasar as economias, impedir-nos o convívio aprisionando-nos como pássaros na gaiola, mudar a forma de nos relacionarmos e de trabalharmos e disseminar fome, solidão e morte por todo o mundo. E, quando julgávamos ter o controlo sobre ele, escapa-se por entre a malha larga das suas mutações, informando-nos que está connosco e connosco quer ficar. Graças à sua força demoníaca de renovação vai adquirindo características novas a cada mutação e fura todas as barreiras que julgávamos ter colocando entre nós e ele. Surge novo, com caraterísticas novas, a cada momento, esplendoroso e cheio força, continuando a arrastar consigo para a morte seres humanos que, pela idade ou por outras razões de saúde, são mais débeis. E são já alguns milhões os que pereceram sob a sua vontade demoníaca.

Jeracina Gonçalves

Barcelos/Portugal, 26/05/2022

domingo, maio 29, 2022


Sombras...
Sombras ensombram o meu olhar.
Tanta destruição, tanta dor
Tanto ódio, tanta guerra
Armas que vomitam morte
Tanto sangue corre pelo chão,
Morto, antes de ter vivido.

Sombras...
Sombras ensombram o meu olhar.
Tantos destroços, tanta dor
Tantos corpos massacrados
Tanto solo esventrado
Tanto sangue derramado!...
Senhor, deixa-me acreditar
Que o mal será destroçado.

Sombras...
Sombras ensombram o meu olhar.

                                            Jeracina Gonçalves
                                            Barcelos/Portugal, 29/05/2022



segunda-feira, maio 23, 2022

MEU DEUS, MUITO OBRIGADA!

Todos os dias, de manhã, ao acordar
salto da cama, corro a persiana do meu quarto
abro a janela de par em par
e grito a Deus, à vida, ao mundo:
-Bom Dia! Meu Deus, muito obrigada!

Cada dia é mais um dia 
que tenho para viver
com firmeza e com vontade 
e exprimir a gratidão
do fundo do meu coração 
por cada novo dia a nascer.

Cada dia é mais um dia 
que tenho para agradecer
a alegria de ser vida 
e com alegria viver
a paz, a serenidade, 
que cerca o meu viver
no inquieto viver 
deste mundo em convulsão
com tanta gente a sofrer 
a fome, a sede, as guerras 
o caos, da morte, a destruição,
as intempéries do tempo… 
a solidão…

Cada dia é mais um dia 
que tenho para agradecer
o meu lugar na vida 
neste mundo global
onde todos somo inseridos 
e temos um papel
na felicidade geral
de forma coletiva 
e também individual.

                                                                                Jeracina Gonçalves
                                                                                Barcelos/Portugal, 11/05/2022

domingo, maio 22, 2022

 OS NOSSOS TEMPOS

Após a infeção pelo Covid19, que aprisionou o mundo durante dois anos empurrando a economia, a educação, a saúde mental e todos os suportes naturais de uma vida saudável e feliz para baixo. Quando chegaram as vacinas chegou-nos a esperança de nos libertarmos finalmente desse pesadelo. Todavia, verificou-se, que devido às várias mutações do vírus, as vacinas apenas atenuavam a doença, evitando muitas mortes, mas não davam imunidade por muito tempo. Todavia, após a administração de três doses, não estava perfeito, mas já era muito bom: as mortes reduziram bastante e a doença grave também. Os casos começaram a diminuir, e o mundo começa a abrir-se, a economia a movimentar-se, a vida a animar-se. Dá-se, então, a invasão de um país europeu soberano, pelo seu colossal vizinho, governado por um louco saudosista, que, lá no íntimo, sonha repor o passado imperial, e deixa esta velha Europa e o mundo em sobressalto, pelo perigo que uma guerra a este nível, representa nos tempos atuais. E a maioria dos países do mundo são solidários com o país invadido. A velha Europa, unida, solidária, impõe sanções ao país invasor e procura ajudar, por todos os meios que não impliquem a entrada física de homens na guerra, o esforço da guerra. Para cúmulo, a pandemia, que se julgava controlada após a aplicação de três doses da vacina, retoma a sua força contaminadora e, rapidamente, se replicam os contágios. Ora, todos estes ingredientes (a infeção pelo Covid, a guerra, a nova onda do Covid) e agora também a meningite dos macacos, a nova hepatite das crianças, formam uma mistura explosiva para a economia e bem-estar mundiais. E a estes ingredientes perversos juntam-se as alterações climáticas, que à morte acrescentam mais morte, à fome mais fome, à destruição mais destruição. 

O nosso país, felizmente, tem paz, não tem sido muito maltratado por fenómenos climáticos extremos e, todos sabemos, que é nosso dever sermos solidários com os que sofrem a guerra, a fome, a miséria, o terror de não saberem se, enquanto dormem, não surgirá um míssil que destrua tudo o que construíram durante uma vida, a própria vida, as dos filhos e as dos netos e amigos. As sanções impostas ao país invasor recaem também sobre nós e todos sentimos a carestia dos produtos básicos; mas não é com greves que poderemos fazer face a esse fenómeno. As greves paralisam a economia e causam prejuízos aos que têm menos capacidade para os suportarem. Só o trabalho, a disciplina, a união entre todos poderá evitar o descalabro de cavar cada vez fossos mais profundos entre ricos e esfomeados. 

Já eram suficientes para aprofundar os desequilíbrios mundiais todas as perversões de uma natureza zangada pelo tratamento que lhe é dado ao longo dos anos,  e deviam unir todo o ser humano na firme determinação do seu combate vencedor, dedicando toda a sua inteligência e criatividade no sentido de corrigir os erros praticados anos e anos, contra a sua casa global; mas apareceu um louco ou um bando de loucos, imbuídos de um sentimento megalómano e imperialista que, seguros da fragilidade da economia mundial deixada por dois anos de pandemia, decidiram aproveitar o momento para invadir o seu vizinho com direito à sua soberania e à escolha dos seus amigos e do seu regime político, destruindo as suas escolas, os seus infantários, as suas creches, os seus bairros habitacionais, os seus hospitais, as suas igrejas, as suas gentes e as suas infraestruturas, com os seus mísseis e armas de destruição. E o mundo não pode ficar indiferente; e a Europa não pode ficar indiferente à guerra no seu espaço geográfico, quer pelo país invadido que integra o seu espaço, quer por todos os países que a constituem. Unamo-nos nesse esforço comum de construção e amor contra a destruição e o terror da guerra, da fome, da poluição e morte do nosso planeta e da espécie humana. Digamos sim à solidariedade, à união, à disciplina individual e coletiva e ao trabalho para o bem e crescimento de todos.

Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal, 22/05/2022

sábado, maio 21, 2022

Que te digo?

Não sei que te dizer.

não sei se é noite se é dia

se vou ganhar se perder

sei que é tempo de Ser.

É tempo de dar as mãos

e num enorme cordão

de Paz Amor e Perdão

fazer renascer as flores

onde há destruição.                           

                                                            JG
                                                             Barcelos/ Portugal/21/05/2022



domingo, maio 15, 2022

POR QUÊ A GUERRA

- Mãe! Mãe! Por quê a guerra?
Por quê a guerra, Mãe?!
- Meu querido, não sei que dizer-te;
É pergunta que me faço,
À qual não sei responder-me.

A guerra não faz sentido
Não tem razão de ser.
É fome, é doença, é miséria
É sangue a regar a terra
É sofrimento
É vida em destroços… 
É horror!
É a noite que se fecha sobre a vida
Sobre a vida espalha sofrimento e terror.

- Mãe! Mãe! Por quê a guerra?
Por quê a guerra, Mãe?!
- Meu querido, não sei que dizer-te
É pergunta que me faço
À qual não sei responder-me.

A guerra não faz sentido.
Não tem razão de ser.
É a ambição pervertida
Em busca dum falso poder.
É fome, doença, miséria,
Muita dor, destruição…
A guerra é perversão.
É a depravada ambição
De homens sem coração.

- Meu querido,
A guerra… não faz sentido!

A vida  é uma dádiva de Amor.
Há que  conservá-la, respeitá-la
Amá-la e fazê-la crescer.
E todos darmos as mãos
Para todos poderem viver
Com Respeito, Amor, Saúde e Pão.
Guerra, Não!

                                                        Jeracina Gonçalves
                                                        Barcelos/Portugal, 15/05/2022

domingo, maio 01, 2022

ANJOS

Andam por aí sem barulho, silenciosos, sem se fazerem notados. Atentos, caminham connosco, amparam-nos nas quedas e ajudam-nos a seguir a nossa caminhada pela vida. Encontrei-os ao longo da minha vida em várias ocasiões. E deram-me a sua força, a sua proteção, a sua coragem, o exemplo da sua bondade, da sua dedicação aos outros, do seu amor à humanidade. 
Era ainda uma menina quando travei conhecimento com eles. Uma menina de dez anos. Deixava pela primeira vez a minha bonita aldeia serrana na serra do Marão e partia para a bela cidade minhota - a Princesa do Lima - para casa de um tio para estudar. Tímida, saudosa dos meus pais, dos meus irmãos e do meu pequeno mundo (o torrão onde nasci), chorava todos os dias e clamava pela pequena aldeia onde tinham ficado os meus afetos: o grande tesouro que guardava ciosamente no meu coração. E foi então que travei conhecimento com o primeiro anjo bom da minha vida (fora do meu reduto habitual), na forma de uma velhinha - a mãe da minha tia -, que me acarinhou com bondade e Amor, e me mimou durante o pouco tempo que lá passei: agora era uma laranja que descascava e ia levar-me, depois era uma bolacha, um copo de leite, um rebuçado…
Tinha sempre um miminho para me acarinhar, para me fazer sentir querida. Mas a menina que eu era, não superou as saudades dos seus afetos. O meu pai teve de ir buscar-me e levou-me para estudar em Vila Real. Porém, aquela velhinha, aquele primeiro anjo bom que entrou na minha vida, nunca mais se apagou do meu coração. E, neste preciso momento em que escrevo, sinto ainda seu perfume benfazejo em meu redor. Ao longo da caminhada fui encontrando outros. Guardo-os a todos no meu coração.
Mas também encontrei anjos negros e perversos, que fizeram sangrar o meu coração e correr pelas minhas faces rios de fel. A esses limpei-os da minha memória, arranquei-os do meu coração e da minha vida. Não guardo nenhum. Nunca permiti que nele marcassem lugar e o corroessem com a sua malignidade.
Andam por aí, anjos da luz e anjos das trevas. Uns e outros vão cruzando, ao longo da caminhada, as linhas das nossas vidas.

Jeracina Gonçalves
Barcelos/Portugal